Pela manhã o dia amanhece silencioso. Cinco e vinte e cinco da manhã eu só ouço o tinido do silêncio depois do escândalo do despertador, é claro.
Me levanto sonolento, os carros lá fora ainda nem começaram a passar. Tão pouco os cantadores da manhã criaram a mesma coragem que eu.
Ainda é noite.
No banho, os pingos da água já fazem o primeiro chiado interferente do dia, talvez seja um dos únicos momentos em que eu não queira ouvir nada, nem ver nada. Apago a luz e fico ali esperando a vista se acostumar e quem sabe pegar no sono de novo...
Me troco e vou pra fora esperar a Van passar. Aí sim o inferno já está instalado.
Centenas de sabias começam a cobiçar as fêmeas do próximo emitindo piados e cantorias com decibéis de um boing. É o que se ganha e o que se perde ao morar perto da praça.
Os carros também colaboram, com fumaça, barulho... Eles já estão ali, subindo a ladeira de casa em primeira e geralmente trocam de marcha bem em frente a minha casa, dando aquela aceleradinha trivial pra ficar mais bonito. Além do quê, com certeza nesse horário os carros são mais barulhentos (onde já se viu carro novo sair de casa antes das 6?).
Ainda aproveito o som incidental do dia antes de criar o meu próprio. São como aquelas músicas onde há primeiro toda aquela introdução, passos, carros freando, chuva caindo. No meu caso é a buzina da Van mesmo que o japonês que dirige insiste em tocá-la umas quatro, cinco vezes como se todo mundo ao redor fosse obrigado ouvir. Nessa hora é engraçado pois até os passarinhos fazem uma pausa.
Já na Van, no mesmo banco, eu tiro os phones de ouvido e faço o dia começar. Nesse percurso de quase duas horas dá pra ouvir muita coisa então eu vou conforme o dia também vai. Hoje por exemplo o sol não veio, quem veio foram as nuvens. Aos montes, coloridas sem cor, brancas e cinzas-chumbo, dia ideal pra ouvir um estilo lo-fi liderado por Nightmares On Wax, Passion. Sem precisar ouvir, a trilha começa bucólica, como a manhã descrita. É como a indecisão que me ronda e me faz questionar todos os dias se é isso mesmo que eu quero pra sempre, acordar cedo, fazer sempre as mesmas coisas e com os minutinhos marcados. Literalmente essa trilha me pergunta, é isso mano?
O caminho chega a ser tão grande que trilhas borbulham enquanto eu sonho. Entre uma freada e outra, acordo com Extatic Chill sussurando Emotional, me embrulhando em um casco hermeticamente fechado. Estou só la dentro, num lugar claro, morno e calmo, com todo o tempo do mundo pra pensar. A dúvida criada sobre a rotina vai passando.
Até que é gostoso fazer isso vez em quando.
Vez em quando...
Ainda no esquema lounge, Riviera Rotation vem com suas cordas batendo devagar até bombar meu ouvido com Jericoacoara Surf. É impressionante como as coisas assumem outra proporção. As pernas querem ir pra longe de mim. Pra Jeri talvez.
Eu, particularmente sinto vontade de transar, de estar na praia, de beber uma cerveja gelada, de suar a nuca...
São duas horas de percurso que na vigília tudo acontece, tudo se transforma mas no fundo sou sempre eu, me acercando de tudo aquilo que me toca.
Já no escritório o dia passa com um zumbido imperceptível. Só sinto que ele existe quando são oito da noite e o ar condicionado é desligado. Aí sim eu sei o que é silêncio. Falta o telefone que toca, a risada estranha que ninguém sabe de onde vem, nem quem é o dono, a voz estridente do chefe que quer chamar a atenção, dos amigos que falam com você o dia todo. Essa é a trilha Office do dia.
Saindo daqui mais uma vez já anoiteceu.
Agora a cidade já fala comigo num tom mais brando, o eco dos carros entre os prédios altos criam aquela atmosfera ruidosa e concisa, uma espécie de canto cibernético que deixa a noite morna de poluição e som.
Agora foi.
O que tinha que ser já foi, a vida volta a ser a minha novamente.
Entro na Van e o cenário mudou bastante. Não tenho mais tanto sono, o que me faz perceber como a cidade é um mar de tanta coisa, mar de luz, mar de barulho, de música, de informação, mar de gente.
No frenesí quem comanda é algum DJ inspirado, no caso de hoje* (* há!) Maumau tocando um set gravado na D-Edge, total deep e balançado. Ele compõe o cenário e o descreve de uma forma tão cabível que é como se os mares pulsassem com a trilha. Os carro freiam, o semáforo abre e fecha várias vezes e depois abre de novo. Tudo se mexe menos nós. Parados, engarrafados. Vibrando por dentro.
E DJ é assim, tocam por uma ou duas horas no máximo e aí o random do Ipod escolhe o que ouvir antes do destino chegar. Marcelo D2 entra soltando os cachorros na minha orelha e encerra a fuga da cidade citando frases interessantes e dignas de serem recordadas, uma delas dita hoje foi "Há algum momento na vida em que é preciso lutar. É quando o sonho da gente resolve um dia voltar". Ótimo!
O contexto do dia resumindo foi excelente. E é feito dia após dia em conjunto com o que se sente. Não existe uma trilha que não combine com você a não ser àquela que você sente.
Enfim, chego em casa e vou nadar.
No fim do dia, mergulhado na piscina, os sons se embolam no meu inconsciente e a profundidade faz do sentidos o ambiente acolhedor e por vezes hostil, como se não existisse mais ninguém no mundo além de mim. Aproveito pra pensar bastante enquanto submarino submerso no profundo oceano azul.
Obrigações feitas, é hora de dormir.
A melancolia volta a cair sobre o bairro que já dorme enquanto eu permaneço acordado buscando saber quem ou o quê irá me fazer dormir.
Procuro algo como se fosse o último instante que me importasse do dia. Procuro por alguma coisa que transforme mais uma vez aquela melancolia dolorida em algo útil.
Não pelo fato da melancolia em si ser algo que me desagrade mas sim pela certeza de que posso mudar tudo e sempre apenas com a mudança do caminho, outra trilha a percorrer, outra trilha pra ouvir.
O nome pode parece engraçado mas entre tantas coisas, foi o que eu achei como um grão de ouro entre todas as milhares de músicas que eu tive acesso.
Era aquilo que eu queria ouvir. A música veio com imagem, gosto, cheiro e toque embutido de brinde. Picnic Music (Soundtrack do filme francês "Nos Enfants Chéris") de Jean Philippe Goude, o francês que com os violinos e a melodia orquestrada me abriu mais uma vez as portas do mundo desconhecido que sempre me esteve disponível. O mundo alternativo dos sonhos, das coisas que eu queria ter feito, das coisas que fiz, das coisas que nunca talvez vá fazer.
É assim que eu quero meu dia, nem tão repleto de felicidade, nem cheio de tristeza.
Eu quero todos assim.
Afinal, toda a forma de sentir é igualmente grandiosa em intensidade e aberta aos que permitem se influenciar.
Trilhas e rumos, sons e canções.
Just feel it.
