E sempre foi assim. A impermanência talvez seja a parte da felicidade que mais me irrita.
Me lembro, por exemplo, quando meu sobrinho nascido prematuro de 6 meses olhou pela primeira vez em meus olhos e sorriu.
Eu sabia que aquilo que sentia era a felicidade. Não por mim que apenas ganhava um sobrinho, mas sim o fato de que naqueles olhos e naquele embrenhado de sentidos, ele seria mais um condutor da felicidade.
E foi contando pra um amigo sobre a raiva dessa insustentabilidade é que uma outra palavrinha me veio à mente. Satisfação.
Depois que ela entrou nessa sopinha de idéias, a própria idéia da felicidade se auto-definiu.
A felicidade está até onde a satisfação não nos cabe mais.
Isso quer dizer que se estamos satisfeitos, a felicidade é como um véu que nos cobre, evitando assim que o mundo externo venha novamente nos oferecer desafios e anseios que farão da nossa vida mais uma vez um inferno em busca da felicidade. E ela tem dessas, ora ela vem e invade nossas almas para em seguida nos deixar a abstinência.
Muitos dizem que o importante não é chegarmos lá e sim viver em plena satisfação até atingirmos ou não nossos objetivos.
Eu digo que não.
Eu sei que nunca vou estar satisfeito com nada.
Sei que a satisfação, assim como a felicidade tem um período de vencimento muito curto. E quando entra o prefixo “in” na estória, é que realmente mergulhamos dentro de nós mesmos em busca de respostas.
Se estamos satisfeitos, dificilmente nos damos a chance de indagarmos sobre mais. Porém, se nos afundamos na insatisfação, é ali que estará os anseios de uma vida cheia de emoção.
A infelicidade faz parte. Assim como inúmeros “in” que iremos nos deparar ao longo de nossas vidas, insegurança, insensatez, incerteza.
São nesses momentos de “in”trospecção que nos surge a essência, e a regra de uma vida inteiramente feliz se esgota.
Eu posso dizer que a felicidade é mesmo espontânea, nunca me fez parar pra pensar, mudar, querer sair correndo e comprar frutas numa banquinha de frutas como fez Amelie, enfiar a mão no saco de alpiste e sorrir pois eu já me estaria me dando por satisfeito.
Passamos a vida trabalhando pra ganhar mais dinheiro e quando o recebemos, nada mais é do que a recompensa de ter trocado uma vida inteira por ele.
Talvez o dia em que eu for plenamente satisfeito será o momento mais depressivo da minha vida, que significa que não há mais nada dentro de mim que me faça querer mais.
Eu gosto é da insatisfação. Da infelicidade.
É nela que eu descubro a cada dia que eu sou um ser mais vivo que todos os demais e não menos agraciado por Deus. Sei somente que estarei repleto de vontades que sempre se transformarão em mais novas vontades.
Talvez quanto mais “in” eu esteja dentro dos parâmetros da felicidade, mais eu esteja em contato comigo mesmo, observando como um segundo espectador a minha própria vida de um novo ponto de vista.
Seja como for, agradeço por ainda achar soluções pra essa ausência de felicidade. E se acaso eu verdadeiramente não achá-la, será o momento em que eu terei a certeza de que um dia já fui feliz e que ela com toda a razão já batera em minha porta. E que eu de fato a percebi.
Viva a insustentabilidade da felicidade.
Viva a introspecção,
O método mais delicioso de acreditar que a felicidade de fato existe.
mardi 29 avril 2008
A insustentabilidade da felicidade
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